Um breve olhar a julho, agosto e ao El Niño
Em primeiro lugar, a longo prazo não podemos falar de previsões mas apenas de possíveis projeções sem grande relevo. Não vamos abordar como se algo de concreto se tratasse mas sim apenas e só de uma possível tendência para os meses que se seguem e abordando inicialmente o El Niño (que muitos já têm ouvido falar).
O que é o El Niño e porque se tem referido o termo Super para o que resta de 2026 e princípio de 2027?
Em primeiro lugar, o El Niño caracteriza-se pela anomalia positiva de temperatura no Pacífico Leste Equatorial, ou seja, água mais quente que o normal por aquelas bandas. Por vezes acontece ficar mais quente (El Niño), por vezes fica mais fria (La Niña) e isso tem naturalmente alguma implicação nas peças e circulação da atmosfera. O que este em particular tem é o facto de poder registar a maior anomalia de temperatura positiva naquela zona, desde que há registos e isso, só por si, acaba por poder influenciar o estado do tempo, primeiramente na zona envolvente (zona das Américas) e, posteriormente, de forma mais global (com um pouco menos de afetação comprovada).
A imagem, para julho, mostra a vermelho carregado, precisamente essa situação de forte El Niño.

Em termos de precipitação, nos meses de julho a setembro, conseguimos perceber que a zona tropical do Pacífico é a mais vulnerável e com possibilidade de desenvolvimento de muitos e intensos furacões, enquanto a zona tropical do Atlântico surge, numa primeira fase, mais amorfa em termos ciclónicos.

Isto parece lógico, porque quanto mais quente a água do mar, mais evaporação e é precisamente no Pacífico que a anomalia da temperatura da água do mar será mais relevante.
Logo, o El Niño não é, só por si, uma tempestade, um ciclone ou um fenómeno extraordinário… é algo recorrente de x em x anos, tal como a La Niña, o seu inverso.
E em Portugal, como se poderá configurar julho e agosto?
Importa sempre referir que a mais de um mês de distância, as tendências são muito mais voláteis, podendo mudar rapidamente e, por isso mesmo, o nosso foco é sempre e só a previsão mensal, como máximo.
No entanto, os nossos seguidores pediram e nós vamos falar sobre isto!
Julho mostra algum potencial para que as depressões circulem no Atlântico norte, provocando pontualmente a passagem de frentes fracas a norte da Península Ibérica e trazendo nortada recorrente, alguns episódios de muita nebulosidade e até tempo relativamente ameno (a fresco nalguns locais).
As imagens mostram:
- Carta média de pressão e anomalia de geopotencial para julho, com o azul a indicar a possibilidade de circulação atlântica, pontualmente a mergulhar em bolsas de ar frio em altitude, dando lugar às trovoadas de aquecimento;
- Anomalia de precipitação, com as zonas a verde, onde poderá ser mais instável;
- Anomalia de temperatura a cerca de 1500m de altitude, com os tons azuis a indicar precisamente que a probabilidade de não termos um julho tremendamente quente é elevada. No entanto, não se exclui que nalguns dias, a circulação possa provocar subida da dorsal, poeiras e tempo mais quente (e até algumas trovoadas), mas nada aparentemente muito durável.



Fazendo o mesmo exercício, verificamos que Agosto mostra algum potencial ainda para uma primeira metade de alguma instabilidade e possibilidade de nortada/nevoeiros mas com subida gradual da pressão atmosférica e dos geopotenciais, levando a que a precipitação possa ser sobretudo de origem convectiva no interior norte e centro principalmente (trovoadas de aquecimento). Ou seja, um agosto mais quente gradualmente, mas ainda algo instável na primeira metade, com bloqueio nos Açores, essencial para esta subida do verão na Ibéria.
As imagens mostram:
- Carta média de pressão e anomalia de geopotencial para agosto, ainda com tom branco a oeste de Portugal Continental mas a anomalia a desnavecer;
- Anomalia de precipitação, com as zonas a verde, onde poderá ser mais instável e mais bloqueio nos Açores;
- Anomalia de temperatura a cerca de 1500m de altitude, com a temperatura mais elevada que no mês de julho e sobretudo a norte e centro.



Sabemos que o tempo no verão em Portugal Continental é muito influenciado pela época de furacões e, com menor tendência à ocorrência de furacões no Atlântico, pelo menos no Trópico de Caranguejo, é natural que as pulsações de ar quente sejam menos persistentes, de forma geral, que em 2025. Mas, ondas de calor, são naturalmente possíveis e, principalmente, durante agosto, em nosso entender.
Valerá a pena preocupar para já com o El Niño no nosso país?
É inegável que em termos globais o El Niño tem uma afetação de maior aquecimento… é inegável que com o El Niño há zonas do planeta tipicamente mais afetadas por grandes inundações e outras por secas… mas também me parece claro que a relação do El Niño e do clima no verão em Portugal não é assim tão linear!
Os anos mais quentes (e naturalmente os últimos 20 anos têm registado alguns dos verões mais quentes – mesmo que no litoral por vezes isso não se note) estão ligados a El Niño e La Niña relativamente fracos.

Muito sinceramente, o El Niño não é tudo para avaliar o tempo no nosso país (e falo do nosso país)! Volto a dizer que independentemente de se projetar um El Niño potencialmente recorde… isso pode por cá não ter especial relevo… pode sim ter maior relevo em zonas adjacentes ao Pacífico Leste Equatorial.
Sobre a sua influência mais para a frente, no Outono e Inverno, é muito cedo para avaliar e os modelos de longo prazo mudam bastante de camisa. Não é estaticamente correlacionável, apenas e só, a fase ENSO, a outonos e invernos mais chuvosos, mais secos, mais frios ou mais quentes… sendo, contudo, mais provável que o outono seja quente e chuvoso que o contrário, neste momento. Mas o ano passado era precisamente o contrário e vimos onde parou… logo, não vamos ao futurismo.
Não vamos sofrer por antecipação!

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