Evento histórico: As grandes enxurradas de 25 para 26 novembro 1967 – O evento meteorológico mais mortífero desde que há registos em Portugal “A Noite do Fim do Mundo”
Conhecer a história meteorológica do nosso país é essencial para perceber que, apesar de termos vivido anos a fio num cantinho à beira-mar plantado, nem todos sempre foram rosas… como no futuro teremos certamente muitos espinhos.
Hoje em dia todos nos recordamos da Kristin e das grandes cheias de 2026. Está tudo muito fresquinho na nossa memória e muitos ainda sofrem na pele os efeitos da devastação que trouxeram.
Muitos ainda se recordam do Leslie em 2018, dos grandes e mortíferos incêndios de 2017 (entre outros), das cheias de dezembro de 2022, de grandes cheias no Algarve da 2ª década de 2000, do aluvião da Madeira em fevereiro de 2010 ou da tragédia de Entre-os-Rios, em 2001.

Os anos passam e a história encarrega-se de ir sumindo eventos da memória da sociedade mas ainda assim, quem viveu dias como os das cheias de fevereiro de 1979, de dezembro de 1981, de novembro de 1983 ou da tragédia de outubro de 1997 nos Arquipélagos, nunca esquecerá!

Outros, ainda mais antigos vivem para sempre, cada vez mais distantes e apenas na memória dos poucos que o viveram e ainda existem para contar a devastação… é o caso do grande ciclone de fevereiro de 1941, o ciclone mais cavado (mais intenso) a afetar o nosso país desde que existem registos.

Mas a noite de 25 para 26 de novembro de 1967 trouxe um rasto de morte diferente: A Noite do Fim do Mundo
Na noite de 25 para 26 de novembro de 1967, uma violenta tempestade atingiu a região de Lisboa e várias zonas do Ribatejo, provocando cheias rápidas e enxurradas de consequências devastadoras. A precipitação intensificou-se ao longo do dia 25 e atingiu valores excecionais durante a noite. No Monte Estoril, entre as 21 e as 22 horas, foram registados 60 milímetros de chuva numa única hora, um valor extraordinário que ilustra a violência do episódio. Em São Julião do Tojal, caíram 110,6 milímetros em apenas cinco horas e algumas estações chegaram até quase 200 litros por m2.
A enorme quantidade de água concentrada em poucas horas fez transbordar ribeiras e linhas de água, transformando-as rapidamente em torrentes que invadiram localidades, arrastaram veículos, destruíram habitações, pontes e estradas e provocaram deslizamentos de terras. A situação foi particularmente grave nas zonas de Loures, Odivelas, Vila Franca de Xira, Oeiras e Cascais, onde muitas populações viviam junto de cursos de água e em construções precárias. Durante a madrugada de 26 de novembro, centenas de pessoas foram surpreendidas pela subida repentina das águas, num cenário agravado pela ocorrência da tempestade durante a noite.
Os sistemas de aviso falharam, porque a precipitação de origem convectiva associada a uma depressão de características subtropicais ao largo da Madeira, na interação com ar polar, foi muito superior a tudo o que, á data, se perspetivava. Este tipo de situação tem acontecido com muita frequência no mediterrâneo nos últimos tempos e é espoletado pela diferença enorme de temperaturas entre a água do mar (mais quente) e os níveis intermédios da atmosfera (mais frio).

Ao amanhecer, a dimensão da catástrofe era evidente, com vastas áreas cobertas de lama e destroços e centenas de vítimas mortais. O número exato de mortos permanece controverso: os dados oficiais da época apontaram para 427 vítimas, enquanto estudos e estimativas posteriores apresentam valores superiores, chegando a, pelo menos, cerca de 700. Mais do que a quantidade total de chuva, foi a extraordinária intensidade da precipitação num curto período, associada à vulnerabilidade das populações e à ocupação de zonas inundáveis, que transformou a noite de 25 para 26 de novembro na mais mortífera catástrofe natural da história recente de Portugal.
Para termos todos um pouco da noção do que foi aquela noite, vejam este documentário do município de Vila Franca de Xira.
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